Quanto mais você tenta controlar a ansiedade, maior ela fica. Isso não é falta de força de vontade. É a estratégia.
O paradoxo do controle
Tentar não pensar em alguma coisa é uma forma de pensar nela. Evitar uma situação que gera ansiedade reduz o desconforto agora e ensina, para a próxima vez, que aquela situação era mesmo perigosa. A esquiva funciona no curto prazo e cobra no longo.
É esse mecanismo que a Terapia de Aceitação e Compromisso, a ACT, coloca no centro. O problema raramente é o conteúdo do pensamento. É o que a pessoa faz para não tê-lo.
De onde vem a ACT
A ACT nasce da análise do comportamento e de uma linha de pesquisa sobre linguagem e cognição. Isso explica o vocabulário: em vez de falar em corrigir distorções de pensamento, ela fala em contingências, em contexto e em função. A pergunta não é se um pensamento é verdadeiro. É o que a pessoa faz quando ele aparece.
É uma abordagem com ampla validação científica para ansiedade e depressão, e é uma das que sustentam a chamada terceira onda das terapias comportamentais.
O que aceitação quer dizer
Aceitação, na ACT, não é resignação nem conformismo. Não é gostar do que se sente, nem achar que está tudo bem. É parar de gastar energia numa luta que aumenta o problema, para poder gastá-la no que de fato importa.
A diferença aparece na pergunta que a terapia faz. Em vez de perguntar como não sentir aquilo, a pergunta passa a ser o que se deixa de fazer enquanto se tenta não sentir.
Fusão: quando o pensamento vira ordem
Fusão é o nome que a ACT dá para o momento em que um pensamento deixa de ser um evento mental e passa a funcionar como instrução. “Eu vou travar na apresentação” deixa de ser uma frase que passou pela cabeça e vira o motivo pelo qual a apresentação é recusada.
O trabalho de desfusão não discute se o pensamento é verdadeiro. Ele muda a relação com ele: notar que é um pensamento, ver de onde vem, e escolher a ação mesmo com ele presente. Pensar também é comportamento, e comportamento se aprende.
Valores e ação comprometida
A outra metade da ACT é a parte do compromisso. Aceitar o desconforto não tem finalidade em si: tem a finalidade de liberar a pessoa para agir na direção do que ela valoriza.
Valor, aqui, não é meta. Meta se cumpre e acaba. Valor é uma direção: estar presente com os filhos, fazer um trabalho de que se orgulhe, cuidar da própria saúde. A ação comprometida é o passo concreto naquela direção, dado com a ansiedade presente, e não depois que ela passar.
O que muda na prática
- Os objetivos são definidos no início, com critérios observáveis
- O trabalho é sobre o que você faz, não sobre o que você é
- Sentimentos deixam de ser obstáculo e passam a ser informação
- A medida do progresso é comportamental: o que você voltou a fazer
Um exemplo
Alguém evita reuniões porque sente o coração acelerar e imagina que vai se expor. Cada reunião evitada alivia na hora. Em três meses, a pessoa perdeu espaço no trabalho, e a reunião ficou mais assustadora do que era.
A estratégia de controle, que parecia proteger, produziu exatamente o resultado temido. O trabalho não começa tentando fazer o coração parar de acelerar. Começa perguntando o que aquela pessoa quer que o trabalho dela seja, e qual é o menor passo possível naquela direção com o coração acelerado.
ACT e FAP juntas
No consultório eu trabalho com ACT e com Psicoterapia Analítico-Funcional, a FAP. A FAP olha para o que acontece dentro da própria sessão: os padrões que a pessoa traz para as relações aparecem também na relação com o terapeuta, e ali podem ser observados e trabalhados no momento em que acontecem.
As duas se complementam. A ACT organiza a direção e a relação com o que se sente. A FAP trabalha o repertório interpessoal onde ele de fato se manifesta.
O que a ACT não faz
Não elimina a ansiedade. A ansiedade é uma resposta normal e tem função. Não substitui o acompanhamento psiquiátrico quando há indicação de tratamento medicamentoso: os trabalhos são complementares. E não promete prazo: a duração estimada e os critérios de encerramento são definidos com você na primeira sessão, e revistos conforme o processo avança.
Referências
- Hayes, S. C., Strosahl, K. D. & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy. Guilford Press.
- De-Farias, A. K. C. R. (2018). Teoria e formulação de casos em análise comportamental clínica. Artmed.

